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Mallarmé  (Literatura) escrito em domingo 01 novembro 2009 14:24

mallarme, poema, poesia, pós-romantismo, verso

                 Nada, esta espuma, virgem verso
          A não designar mais que a copa;
          Ao longe, se afoga uma tropa
          De muitas sereias ao inverso.

          Navegamos, amigos fraternos
          Comigo desde já sobre a popa.
          Vocês avançam, sobre a proa
          A onda de raios e invernos;

          Uma embriaguez me livra
          Sem temer o mar mais acima
          Erguendo de pé este brinde

          Solidão, recife, estrela
          Não importa o que vibre
          O branco da vela em cena.

          (Trad. André Dick)

No poema acima, Mallarmé faz uma análise da página em branco na qual escreve com a espuma do mar, além de associá-la a um brinde que faz com os amigos. A imagem “Solidão, recife, estrela” mostra essa idéia de descrição imaginária do poeta – frente à página que escreve. Ao mesmo tempo, há a lembrança homérica, da cena em que o canto das sereias atraíram os homens para a morte, fazendo com que Ulisses fosse amarrado ao mastro e não caísse nas águas. Toda essa visualização de Mallarmé é eficaz e estabelece um diálogo entre vida e obra de maneira decisiva. Mallarmé é um dos primeiros autores a ter a consciência de que o escrito moderno se faz também numa relação intertextual, por meio da releitura, o que os românticos entreviram, mas ainda preferiram associar a um elemento mágico de descoberta subjetiva.
          Mallarmé sucedeu Baudelaire, o autor de Les fleurs du mal, mas não em termos poéticos: seu caminho foi um pouco contrário. A força do enigma – “sugerir, eis tudo”, dizia” –, a atração pela música, pelas artes plásticas e, sobretudo, pela teoria, o aproximava, como poucos, a Baudelaire. Como Baudelaire, Mallarmé teve Edgar Allan Poe como grande pensador crítico (os textos sobre poesia foram essenciais para a formação artística de ambos). Mallarmé se aproximava tanto de Baudelaire quanto de Rimbaud, o que é destacado na maioria dos livros de teoria literária. Octavio Paz identifica essa tríade (em Os filhos do barro, principalmente). Mas a verdadeira definição de quais posturas eles tiveram diante do material literário, que é a linguagem, se esclarece na relação que tiveram com o movimento romântico, que precedeu o Simbolismo. Concentrando-nos em Mallarmé, é visível que ele fez leituras de Poe (de “A filosofia da composição”) e de Baudelaire em textos imprescindíveis sobre o livro (“Quant au livre”, “Livre”), música (“La musique et les lettres” e “Hommage a Richard Wagner”), além da entrevista a Jules Huret. Sua condição, portanto, é pós-romântica.

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