Nada, esta
espuma, virgem verso
A não
designar mais que a copa;
Ao longe, se
afoga uma tropa
De muitas
sereias ao inverso.
Navegamos, amigos fraternos
Comigo desde
já sobre a popa.
Vocês
avançam, sobre a proa
A onda
de raios e invernos;
Uma
embriaguez me livra
Sem temer o
mar mais acima
Erguendo de
pé este brinde
Solidão, recife, estrela
Não importa
o que vibre
O branco da
vela em cena.
(Trad. André Dick)
No
poema acima, Mallarmé faz uma análise da página em branco na qual
escreve com a espuma do mar, além de associá-la a um brinde que faz
com os amigos. A imagem “Solidão, recife, estrela”
mostra essa idéia de descrição imaginária do poeta – frente à
página que escreve. Ao mesmo tempo, há a lembrança homérica, da
cena em que o canto das sereias atraíram os homens para a morte,
fazendo com que Ulisses fosse amarrado ao mastro e não caísse
nas águas. Toda essa visualização de Mallarmé é eficaz e estabelece
um diálogo entre vida e obra de maneira decisiva. Mallarmé é um dos
primeiros autores a ter a consciência de que o escrito moderno se
faz também numa relação intertextual, por meio da releitura, o que
os românticos entreviram, mas ainda preferiram associar a um
elemento mágico de descoberta subjetiva.
Mallarmé
sucedeu Baudelaire, o autor de Les fleurs du mal, mas não
em termos poéticos: seu caminho foi um pouco contrário. A força do
enigma – “sugerir, eis tudo”, dizia”
–, a atração pela música, pelas artes plásticas e, sobretudo,
pela teoria, o aproximava, como poucos, a Baudelaire. Como
Baudelaire, Mallarmé teve Edgar Allan Poe como grande pensador
crítico (os textos sobre poesia foram essenciais para a formação
artística de ambos). Mallarmé se aproximava tanto de Baudelaire
quanto de Rimbaud, o que é destacado na maioria dos livros de
teoria literária. Octavio Paz identifica essa tríade (em Os
filhos do barro, principalmente). Mas a verdadeira definição
de quais posturas eles tiveram diante do material literário, que é
a linguagem, se esclarece na relação que tiveram com o movimento
romântico, que precedeu o Simbolismo. Concentrando-nos em Mallarmé,
é visível que ele fez leituras de Poe (de “A filosofia da
composição”) e de Baudelaire em textos imprescindíveis sobre
o livro (“Quant au livre”, “Livre”), música
(“La musique et les lettres” e “Hommage a Richard
Wagner”), além da entrevista a Jules Huret. Sua condição,
portanto, é pós-romântica.