Ao ver de noite muda, acompanhar-me,
a minha sombra, que se encolhe e cresce,
mais do que a minha própria me parece
a de álguem que me segue p'ra espiar-me.
Se paro, a conversar com um amigo,
ela pára também, fica a espreitar,
grudada ao muro, como a procurar
saber o que é que penso mas não digo.
Vocês dirão: “Mas isso é medo puro!
Até da própria sombra desconfia...”
Que chegasse a tal ponto eu não diria,
mas, acho sempre bom pensar no escuro.
Trisulla
ENCONTRO COM A PRÓPRIA SOMBRA
Jung
O homem que olha no espelho das águas vê realmente seu próprio rosto, antes de tudo. Quem se dirige a si mesmo arrisca-se a uma confrontação consigo próprio. O espelho não lisonjeia, reflete fielmente o que está diante dele, isto é, o rosto, que nunca mostramos para o mundo porque o cobrimos com a “persona’, a máscara do ator. Mas o espelho permanece atrás da máscara e apresenta o rosto verdadeiro.
Este confronto é o primeiro teste de coragem em nosso íntimo, um teste suficiente para atemorizar muitas pessoas, pois o encontro de nós próprios pertence às coisas mais desagradáveis, que podem ser evitadas, desde que possuamos símbolos vivos traçados, nos quais tudo o que é íntimo e desconhecido é projetado.
O encontro consigo mesmo é o encontro com a própria sombra. Para usar uma metáfora, a sombra é um passado impenetrável, uma porta estreita, cujo doloroso aperto não é poupado a ninguém que desce à profunda nascente. Mas, deve-se estudar a fim de conhecer-se, para se saber quem é. Pois o que vem depois da porta é bastante surpreendente, uma expansão ilimitada cheia de dúvidas sem precedentes, aparentemente com nenhum interior e exterior, com nenhum acima e abaixo, aqui e acolá, meu e teu, nem bom nem mau. É o mundo das águas, onde tudo que vive flutua em suspensão, onde começa o reino do sistema simpático, da alma de tudo que vive, onde eu sou inseparavelmente isto e aquilo, e aquilo isto são eu; onde eu experimento a outra pessoa em mim, e a outra, como eu mesmo, experimenta a mim.
Não, o inconsciente não é um sistema pessoal encapsulado, é o mundo largo, e, objetivamente, tão aberto quanto o mundo. Eu sou o objeto, mesmo o sujeito do objeto, numa completa reversão da minha consciência ordinária, onde sou sempre um sujeito que possui um objeto. Ali me encontro no emanranhado mais cerrado com o mundo, de tal modo uma parte deste, que esqueço com facilidade quem realmente sou: “perdido em si”, é uma boa frase para descrever o estado. Mas este ego é o mundo, se somente uma consciência o pudesse ver. É por isso que devemos saber quem somos.
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