Home Data de criação : 08/10/24 Última atualização : 09/11/17 21:36 / 65 Artigos publicados

Psicologia X Arte

Sombra  (Psicologia X Arte) escrito em terça 17 novembro 2009 21:36

 

Ao ver de noite muda, acompanhar-me,

a minha sombra, que se encolhe e cresce,

mais do que a minha própria me parece

a de álguem que me segue p'ra espiar-me.


Se paro, a conversar com um amigo,

ela pára também, fica a espreitar,

grudada ao muro, como a procurar

saber o que é que penso mas não digo.


Vocês dirão: “Mas isso é medo puro!

Até da própria sombra desconfia...”

Que chegasse a tal ponto eu não diria,

mas, acho sempre bom pensar no escuro.

 

Trisulla

 

ENCONTRO COM A PRÓPRIA SOMBRA

 Jung

O homem que olha no espelho das águas vê realmente seu próprio rosto, antes de tudo. Quem se dirige a si mesmo arrisca-se a uma confrontação consigo próprio. O espelho não lisonjeia, reflete fielmente o que está diante dele, isto é, o rosto, que nunca mostramos para o mundo porque o cobrimos com a “persona’, a máscara do ator. Mas o espelho permanece atrás da máscara e apresenta o rosto verdadeiro.

            Este confronto é o primeiro teste de coragem em nosso íntimo, um teste suficiente para atemorizar muitas pessoas, pois o encontro de nós próprios pertence às coisas mais desagradáveis, que podem ser evitadas, desde que possuamos símbolos vivos traçados, nos quais tudo o que é íntimo e desconhecido é projetado.

            O encontro consigo mesmo é o encontro com a própria sombra. Para usar uma metáfora, a sombra é um passado impenetrável, uma porta estreita, cujo doloroso aperto não é poupado a ninguém que desce à profunda nascente. Mas, deve-se estudar a fim de conhecer-se, para se saber quem é. Pois o que vem depois da porta é bastante surpreendente, uma expansão ilimitada cheia de dúvidas sem precedentes, aparentemente com nenhum interior e exterior, com nenhum acima e abaixo, aqui e acolá, meu e teu, nem bom nem mau. É o mundo das águas, onde tudo que vive flutua em suspensão, onde começa o reino do sistema simpático, da alma de tudo que vive, onde eu sou inseparavelmente isto e aquilo, e aquilo isto são eu; onde eu experimento a outra pessoa em mim, e a outra, como eu mesmo, experimenta a mim.

            Não, o inconsciente não é um sistema pessoal encapsulado, é o mundo largo, e, objetivamente, tão aberto quanto o mundo. Eu sou o objeto, mesmo o sujeito do objeto, numa completa reversão da minha consciência ordinária, onde sou sempre um sujeito que possui um objeto. Ali me encontro no emanranhado mais cerrado com o mundo, de tal modo uma parte deste, que esqueço com facilidade quem realmente sou: “perdido em si”, é uma boa frase para descrever o estado. Mas este ego é o mundo, se somente uma consciência o pudesse ver. É por isso que devemos saber quem somos.

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Teorias da Personalidade  (Psicologia X Arte) escrito em terça 17 novembro 2009 20:59

Carl Gustav Jung

 

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"Eu logo cheguei à compreensão que quando nenhuma resposta vem do interior para os problemas e complexidades da vida, eles definitivamente significam muito pouco. Circunstâncias externas não são substitutas para a experiência interna. Logo minha vida tem sido singularmente pobre em acontecimentos externos. Eu não posso dizer muito sobre eles, pois isto me pareceria vazio e insubstancial. Só posso compreender-me sob a luz dos acontecimentos interiores. São eles que constituem a particularidade da minha vida e é deles que trata minha auto-biografia."

Memória, Sonhos & Reflexões. C.G. Jung

Dentre todos os conceitos de Carl Gustav Jung, a idéia de introversão e extroversão são as mais usadas. Jung descobriu que cada indivíduo pode ser caracterizado como sendo primeiramente orientado para seu interior ou para o exterior, sendo que a energia dos introvertidos se dirige em direção a seu mundo interno, enquanto a energia do extrovertido é mais focalizada no mundo externo. 

Entretanto, ninguém é totalmente introvertido ou extrovertido. Algumas vezes a introversão é mais apropriada, em outras ocasiões a extroversão é mais adequada mas, as duas atitudes se excluem mutuamente, de forma que não se pode manter ambas ao mesmo tempo. Também enfatizava que nenhuma das duas é melhor que a outra, citando que o mundo precisa dos dois tipos de pessoas. Darwin, por exemplo, era predominantemente extrovertido, enquanto Kant era introvertido por excelência. 

O ideal para o ser humano é ser flexível, capaz de adotar qualquer dessas atitudes quando for apropriado, operar em equilíbrio entre as duas.


As Atitudes: Introversão e Extroversão
Os introvertidos concentram-se prioritariamente em seus próprios pensamentos e sentimentos, em seu mundo interior, tendendo à introspecção. O perigo para tais pessoas é imergir de forma demasiada em seu mundo interior, perdendo ou tornando tênue o contato com o ambiente externo. O cientista distraído, estereotipado, é um exemplo claro deste tipo de pessoa absorta em suas reflexões em notável prejuízo do pragmatismo necessário à adaptação.

Os extrovertidos, por sua vez, se envolvem com o mundo externo das pessoas e das coisas. Eles tendem a ser mais sociais e mais conscientes do que acontece à sua volta. Necessitam se proteger para não serem dominados pelas exterioridades e, ao contrário dos introvertidos, se alienarem de seus próprios processos internos. Algumas vezes esses indivíduos são tão orientados para os outros que podem acabar se apoiando quase exclusivamente nas idéias alheias, ao invés de desenvolverem suas próprias opiniões.


As Funções Psíquicas
Jung identificou quatro funções psicológicas que chamou de fundamentais: pensamento, sentimento, sensação e intuição. E cada uma dessas funções pode ser experienciada tanto de maneira introvertida quanto extrovertida.


O Pensamento
Jung via o pensamento e o sentimento como maneiras alternativas de elaborar julgamentos e tomar decisões. O Pensamento, por sua vez, está relacionado com a verdade, com julgamentos derivados de critérios impessoais, lógicos e objetivos. As pessoas nas quais predomina a função do Pensamento são chamadas de Reflexivas. Esses tipos reflexivos são grandes planejadores e tendem a se agarrar a seus planos e teorias, ainda que sejam confrontados com contraditória evidência.


O Sentimento
Tipos sentimentais são orientados para o aspecto emocional da experiência. Eles preferem emoções fortes e intensas ainda que negativas, a experiências apáticas e mornas. A consistência e princípios abstratos são altamente valorizados pela pessoa sentimental. Para ela, tomar decisões deve ser de acordo com julgamentos de valores próprios, como por exemplo, valores do bom ou do mau, do certo ou do errado, agradável ou desagradável, ao invés de julgar em termos de lógica ou eficiência, como faz o reflexivo.


A Sensação

Jung classifica a sensação e a intuição juntas, como as formas de apreender informações, diferentemente das formas de tomar decisões. A Sensação se refere a um enfoque na experiência direta, na percepção de detalhes, de fatos concretos. A Sensação reporta-se ao que uma pessoa pode ver, tocar, cheirar. É a experiência concreta e tem sempre prioridade sobre a discussão ou a análise da experiência.

Os tipos sensitivos tendem a responder à situação vivencial imediata, e lidam eficientemente com todos os tipos de crises e emergências. Em geral eles estão sempre prontos para o momento atual, adaptam-se facilmente às emergências do cotidiano, trabalham melhor com instrumentos, aparelhos, veículos e utensílios do que qualquer um dos outros tipos.


A Intuição
A intuição é uma forma de processar informações em termos de experiência passada, objetivos futuros e processos inconscientes. As implicações da experiência (o que poderia acontecer, o que é possível) são mais importantes para os intuitivos do que a experiência real por si mesma. Pessoas fortemente intuitivas dão significado às suas percepções com tamanha rapidez que, via de regra, não conseguem separar suas interpretações conscientes dos dados sensoriais brutos obtidos. Os intuitivos processam informação muito depressa e relacionam, de forma automática, a experiência passada com as informações relevantes da experiência imediata.


Arquétipos
Dentro do Inconsciente Coletivo existem, segundo Jung, estruturas psíquicas ou Arquétipos. Tais Arquétipos são formas sem conteúdo próprio que servem para organizar ou canalizar o material psicológico. Eles se parecem um pouco com leitos de rio secos, cuja forma determina as características do rio, porém desde que a água começa a fluir por eles. Particularmente comparo os Arquétipos à porta de uma geladeira nova; existem formas sem conteúdo - em cima formas arredondadas (você pode colocar ovos, se quiser ou tiver ovos), mais abaixo existe a forma sem conteúdo para colocar refrigerantes, manteiga, queijo, etc., mas isso só acontecerá se a vida ou o meio onde você existir lhe oferecer tais produtos. De qualquer maneira as formas existem antecipadamente ao conteúdo. Arquetipicamente existe a forma para colocar Deus, mas isso depende das circunstâncias existenciais, culturais e pessoais.

Jung também chama os Arquétipos de imagens primordiais, porque eles correspondem freqüentemente a temas mitológicos que reaparecem em contos e lendas populares de épocas e culturas diferentes. Os mesmos temas podem ser encontrados em sonhos e fantasias de muitos indivíduos. De acordo com Jung, os Arquétipos, como elementos estruturais e formadores do inconsciente, dão origem tanto às fantasias individuais quanto às mitologias de um povo.

A história de Édipo é uma boa ilustração de um Arquétipo. É um motivo tanto mitológico quanto psicológico, uma situação arquetípica que lida com o relacionamento do filho com seus pais. Há, obviamente, muitas outras situações ligadas ao tema, tal como o relacionamento da filha com seus pais, o relacionamento dos pais com os filhos, relacionamentos entre homem e mulher, irmãos, irmãs e assim por diante.

O termo Arquétipo freqüentemente é mal compreendido, julgando-se que expressa imagens ou motivos mitológicos definidos. Mas estas imagens ou motivos mitológicos são apenas representações conscientes do Arquétipo. O Arquétipo é uma tendência a formar tais representações que podem variar em detalhes, de povo a povo, de pessoa a pessoa, sem perder sua configuração original.

Uma extensa variedade de símbolos pode ser associada a um Arquétipo. Por exemplo, o Arquétipo materno compreende não somente a mãe real de cada indivíduo, mas também todas as figuras de mãe, figuras nutridoras. Isto inclui mulheres em geral, imagens míticas de mulheres (tais como Vênus, Virgem Maria, mãe Natureza) e símbolos de apoio e nutrição, tais como a Igreja e o Paraíso. O Arquétipo materno inclui aspectos positivos e negativos, como a mãe ameaçadora, dominadora ou sufocadora. Na Idade Média, por exemplo, este aspecto do Arquétipo estava cristalizado na imagem da velha bruxa.

Jung escreveu que cada uma das principais estruturas da personalidade seriam Arquétipos, incluindo o Ego, a Persona, a Sombra, a Anima (nos homens), o Animus (nas mulheres) e o Self.


Símbolos
De acordo com Jung, o inconsciente se expressa primariamente através de símbolos. Embora nenhum símbolo concreto possa representar de forma plena um Arquétipo (que é uma forma sem conteúdo específico), quanto mais um símbolo se harmonizar com o material inconsciente organizado ao redor de um Arquétipo, mais ele evocará uma resposta intensa e emocionalmente carregada.

Jung se interessa nos símbolos naturais, que são produções espontâneas da psique individual, mais do que em imagens ou esquemas deliberada-mente criados por um artista. Além dos símbolos encontrados em sonhos ou fantasias de um indivíduo, há também símbolos coletivos importantes, que são geralmente imagens religiosas, tais como a cruz, a estrela de seis pontas de David e a roda da vida budista.

Imagens e termos simbólicos, via de regra, representam conceitos que nós não podemos definir com clareza ou compreender plenamente. Para Jung, um signo representa alguma outra coisa; um símbolo é alguma coisa em si mesma, uma coisa dinâmica e viva. O símbolo representa a situação psíquica do indivíduo e ele é essa situação num dado momento.

Aquilo a que nós chamamos de símbolo pode ser um termo, um nome ou até uma imagem familiar na vida diária, embora possua conotações específicas além de seu significado convencional e óbvio. Assim, uma palavra ou uma imagem é simbólica quando implica alguma coisa além de seu significado manifesto e imediato. Esta palavra ou esta imagem tem um aspecto inconsciente mais amplo que não é nunca precisamente definido ou plenamente explicado.


Os Sonhos
Os sonhos são pontes importantes entre processos conscientes e inconscientes. Comparado à nossa vida onírica, o pensamento consciente contém menos emoções intensas e imagens simbólicas. Os símbolos oníricos freqüentemente envolvem tanta energia psíquica, que somos compelidos a prestar atenção neles.
Para Jung, os sonhos desempenham um importante papel complementar ou compensatório. Os sonhos ajudam a equilibrar as influências variadas a que estamos expostos em nossa vida consciente, sendo que tais influências tendem a moldar nosso pensamento de maneiras freqüentemente inadequadas à nossa personalidade e individualidade. A função geral dos sonhos, para Jung, é tentar estabelecer a nossa balança psicológica pela produção de um material onírico que reconstitui equilíbrio psíquico total.

Jung abordou os sonhos como realidades vivas que precisam ser experimentadas e observadas com cuidado para serem compreendidas. Ele tentou descobrir o significado dos símbolos oníricos prestando atenção à forma e ao conteúdo do sonho e, com relação à análise dos sonhos, Jung distanciou-se gradualmente da maneira psicanalítica na livre associação.

Pelo fato do sonho lidar com símbolos, Jung achava que eles teriam mais de um significado, não podendo haver um sistema simples ou mecânico para sua interpretação. Qualquer tentativa de análise de um sonho precisa levar em conta as atitudes, a experiência e a formação do sonhador. É uma aventura comum vivida entre o analista e o analisando. O caráter das interpretações do analista é apenas experimental, até que elas sejam aceitas e sentidas como válidas pelo analisando.

Mais importante do que a compreensão cognitiva dos sonhos é o ato de experienciar o material onírico e levá-lo a sério. Para o analista junguiano devemos tratar nossos sonhos não como eventos isolados, mas como comunicações dos contínuos processos inconscientes. Para a corrente junguiana é necessário que o inconsciente torne conhecida sua própria direção, e nós devemos dar-lhe os mesmos direitos do Ego, se é que cada lado deva adaptar-se ao outro. À medida que o Ego ouve e o inconsciente é encorajado a participar desse diálogo, a posição do inconsciente é transformada daquela de um adversário para a de um amigo, com pontos de vista de algum modo diferentes mas complementares.


O Ego

O Ego é o centro da consciência e um dos maiores Arquétipos da perso-nalidade. Ele fornece um sentido de consistência e direção em nossas vidas conscientes. Ele tende a contrapor-se a qualquer coisa que possa ameaçar esta frágil consistência da consciência e tenta convencer-nos de que sempre devemos planejar e analisar conscientemente nossa experiência. Somos levados a crer que o Ego é o elemento central de toda a psique e chegamos a ignorar sua outra metade, o inconsciente.

De acordo com Jung, a princípio a psique é apenas o inconsciente. O Ego emerge dele e reúne numerosas experiências e memórias, desenvolvendo a divisão entre o inconsciente e o consciente. Não há elementos inconscientes no Ego, só conteúdos conscientes derivados da experiência pessoal.


A Persona
Nossa Persona é a forma pela qual nos apresentamos ao mundo. É o caráter que assumimos; através dela nós nos relacionamos com os outros. A Persona inclui nossos papéis sociais, o tipo de roupa que escolhemos para usar e nosso estilo de expressão pessoal. O termo Persona é derivado da palavra latina equivalente a máscara, se refere às máscaras usadas pelos atores no drama grego para dar significado aos papéis que estavam representando. As palavras "pessoa" e "personalidade" também estão relacionadas a este termo.

A Persona tem aspectos tanto positivos quanto negativos. Uma Persona dominante pode abafar o indivíduo e aqueles que se identificam com sua Persona tendem a se ver apenas nos termos superficiais de seus papéis sociais e de sua fachada. Jung chamou também a Persona de Arquétipo da conformidade. Entretanto, a Persona não é totalmente negativa. Ela serve para proteger o Ego e a psique das diversas forças e atitudes sociais que nos invadem. A Persona é também um instrumento precioso para a comunicação. Nos dramas gregos, as máscaras dos atores, audaciosamente desenhadas, informavam a toda a platéia, ainda que de forma um pouco estereotipada, sobre o caractere as atitudes do papel que cada ator estava representando. A Persona pode, com freqüência, desempenhar um papel importante em nosso desenvolvimento positivo. À medida que começamos a agir de determinada maneira, a desempenhar um papel, nosso Ego se altera gradualmente nessa direção.

Entre os símbolos comumente usados para a Persona, incluem-se os objetos que usamos para nos cobrir (roupas, véus), símbolos de um papel ocupacional (instrumentos, pasta de documentos) e símbolos de status (carro, casa, diploma). Esses símbolos foram todos encontrados em sonhos como representações da Persona. Por exemplo, em sonhos, uma pessoa com Persona forte pode aparecer vestida de forma exagerada ou constrangida por um excesso de roupas. Uma pessoa com Persona fraca poderia aparecer despida e exposta. Uma expressão possível de uma Persona extremamente inadequada seria o fato de não ter pele.


A Sombra
Para Jung, a Sombra é o centro do Inconsciente Pessoal, o núcleo do material que foi reprimido da consciência. A Sombra inclui aquelas tendências, desejos, memórias e experiências que são rejeitadas pelo indivíduo como incompatíveis com a Persona e contrárias aos padrões e ideais sociais. Quanto mais forte for nossa Persona, e quanto mais nos identificarmos com ela, mais repudiaremos outras partes de nós mesmos. A Sombra representa aquilo que consideramos inferior em nossa personalidade e também aquilo que negligenciamos e nunca desenvolvemos em nós mesmos. Em sonhos, a Sombra freqüentemente aparece como um animal, um anão, um vagabundo ou qualquer outra figura de categoria mais baixa.

Em seu trabalho sobre repressão e neurose, Freud concentrou-se, de inicio, naquilo que Jung chama de Sombra. Jung descobriu que o material reprimido se organiza e se estrutura ao redor da Sombra, que se torna, em certo sentido, um Self negativo, a Sombra do Ego. A Sombra é, via de regra, vivida em sonhos como uma figura escura, primitiva, hostil ou repelente, porque seus conteúdos foram violentamente retirados da consciência e aparecem como antagônicos à perspectiva consciente. Se o material da Sombra for tra-zido à consciência, ele perde muito de sua natureza de medo, de desconhecido e de escuridão.

A Sombra é mais perigosa quando não é reconhecida pelo seu portador. Neste caso, o indivíduo tende a projetar suas qualidades indesejáveis em outros ou a deixar-se dominar pela Sombra sem o perceber. Quanto mais o material da Sombra tornar-se consciente, menos ele pode dominar. Entretanto, a Sombra é uma parte integral de nossa natureza e nunca pode ser simplesmente eliminada. Uma pessoa sem Sombra não é uma pessoa completa, mas uma caricatura bidimensional que rejeita a mescla do bom e do mal e a ambivalência presentes em todos nós.

Cada porção reprimida da Sombra representa uma parte de nós mesmos. Nós nos limitamos na mesma proporção que mantemos este material inconsciente.

À medida que a Sombra se faz mais consciente, recuperamos partes previamente reprimidas de nós mesmos. Além disso, a Sombra não é apenas uma força negativa na psique. Ela é um depósito de considerável energia instintiva, espontaneidade e vitalidade, e é a fonte principal de nossa criatividade. Assim como todos os Arquétipos, a Sombra se origina no Inconsciente Coletivo e pode permitir acesso individual a grande parte do valioso material inconsciente que é rejeitado pelo Ego e pela Persona.
No momento em que acharmos que a compreendemos, a Sombra aparecerá de outra forma. Lidar com a Sombra é um processo que dura a vida toda, consiste em olhar para dentro e refletir honestamente sobre aquilo que vemos lá.


O Self
Jung chamou o Self de Arquétipo central, Arquétipo da ordem e totalidade da personalidade. Segundo Jung, consciente e inconsciente não estão necessariamente em oposição um ao outro, mas complementam-se mutuamente para formar uma totalidade: o Self. Jung descobriu o Arquétipo do Self apenas depois de estarem concluídas suas investigações sobre as outras estruturas da psique. O Self é com freqüência figurado em sonhos ou imagens de forma impessoal, como um círculo, mandala, cristal ou pedra, ou de forma pessoal como um casal real, uma criança divina, ou na forma de outro símbolo de divindade. Todos estes são símbolos da totalidade, unificação, reconciliação de polaridades, ou equilíbrio dinâmico, os objetivos do processo de Individuação.

O Self é um fator interno de orientação, muito diferente e até mesmo estranho ao Ego e à consciência. Para Jung, o Self não é apenas o centro, mas também toda a circunferência que abarca tanto o consciente quanto o inconsciente, ele é o centro desta totalidade, tal como o Ego é o centro da consciência. Ele pode, de início, aparecer em sonhos como uma imagem significante, um ponto ou uma sujeira de mosca, pelo fato do Self ser bem pouco familiar e pouco desenvolvido na maioria das pessoas. O desenvolvimento do Self não significa que o Ego seja dissolvido. Este último continua sendo o centro da consciência, mas agora ele é vinculado ao Self como conseqüência de um longo e árduo processo de compreensão e aceitação de nossos processos inconscientes. O Ego já não parece mais o centro da personalidade, mas uma das inúmeras estruturas dentro da psique.


Crescimento Psicológico - Individuação
Segundo Jung, todo indivíduo possui uma tendência para a Individuação ou auto desenvolvimento. Individuação significa tornar-se um ser único, homogêneo. na medida em que por individualidade entendemos nossa singularidade mais íntima, última e incomparável, significando também que nos tornamos o nosso próprio si mesmo. Pode-se traduzir Individuação como tornar-se si mesmo, ou realização do si mesmo.

Individuação é um processo de desenvolvimento da totalidade e, portanto, de movimento em direção a uma maior liberdade. Isto inclui o desenvolvimento do eixo Ego-Self, além da integração de várias partes da psique: Ego, Persona, Sombra, Anima ou Animus e outros Arquétipos inconscientes. Quando tornam-se individuados, esses Arquétipos expressam-se de maneiras mais sutis e complexas.
Quanto mais conscientes nos tornamos de nós mesmos através do auto conhecimento, tanto mais se reduzirá a camada do inconsciente pessoal que recobre o inconsciente coletivo. Desta forma, sai emergindo uma consciência livre do mundo mesquinho, suscetível e pessoal do Eu, aberta para a livre participação de um mundo mais amplo de interesses objetivos. 

Essa consciência ampliada não é mais aquele novelo egoísta de desejos, temores, esperanças e ambições de caráter pessoal, que sempre deve ser compensado ou corrigido por contra-tendências inconscientes; tornar-se-á uma função de relação com o mundo de objetos, colocando o indivíduo numa comunhão incondicional, obrigatória e indissolúvel com o mundo.

Do ponto de vista do Ego, crescimento e desenvolvimento consistem na integração de material novo na consciência, o que inclui a aquisição de conhecimento a respeito do mundo e da prória pessoa. O crescimento, para o Ego, é essencialmente a expansão do conhecimento consciente. Entretanto, Individuação é o desenvolvimento do Self e, do seu ponto de vista, o objetivo é a união da consciência com o inconsciente. 

Como analista, Jung descobriu que aqueles que vinham a ele na primeira metade da vida estavam relativamente desligados do processo interior de Individuação; seus interesses primários centravam-se em realizações externas, no "emergir" como indivíduos e na consecução dos objetivos do Ego. Analisandos mais velhos, que haviam alcançado tais objetivos, de forma razoável, tendiam a desenvolver propósitos diferentes, interesse maior pela integração do que pelas realizações, busca de harmonia com a totalidade da psique.

O primeiro passo no processo de Individuação é o desnudamento da Persona. Embora esta tenha funções protetoras importantes, ela é também uma máscara que esconde o Self e o inconsciente.
Ao analisarmos a Persona, dissolvemos a máscara e descobrimos que, aparentando ser individual, ela é de fato coletiva; em outras palavras, a Persona não passa de uma máscara da psique coletiva. No fundo, nada tem de real; ela representa um compromisso entre o indivíduo e a sociedade acerca daquilo que alguém parece ser: nome, título, ocupação, isto ou aquilo.

De certo modo, tais dados são reais mas, em relação à individualidade essencial da pessoa, representam algo de secundário, uma vez que resultam de um compromisso no qual outros podem ter uma quota maior do que a do indivíduo em questão.

O próximo passo é o confronto com a Sombra. Na medida em que nós aceitamos a realidade da Sombra e dela nos distinguimos, podemos ficar livres de sua influência. Além disso, nós nos tornamos capazes de assimilar o valioso material do inconsciente pessoal que é organizado ao redor da Sombra.

O terceiro passo é o confronto com a Anima ou Animus. Este Arquétipo deve ser encarado como uma pessoa real, uma entidade com quem se pode comunicar e de quem se pode aprender. Jung faria perguntas à sua Anima sobre a interpretação de símbolos oníricos, tal como um analisando a consultar um analista. O indivíduo também se conscientiza de que a Anima (ou o Animus) tem uma autonomia considerável e de que há probabilidade dela influenciar ou até dominar aqueles que a ignoram ou os que aceitam cegamente suas imagens e projeções como se fossem deles mesmos.

O estágio final do processo de Individuação é o desenvolvimento do Self. Jung dizia que o si mesmo é nossa meta de vida, pois é a mais completa expressão daquela combinação do destino a que nós damos o nome de indivíduo. O Self torna-se o novo ponto central da psique, trazendo unidade à psique e integrando o material consciente e o inconsciente. O Ego é ainda o centro da consciência, mas não é mais visto como o núcleo de toda a personalidade.

Jung escreve que devemos ser aquilo que somos e precisamos descobrir nossa própria individualidade, aquele centro da personalidade que é eqüidistante do consciente e do inconsciente. Dizia que precisamos visar este ponto ideal em direção ao qual a natureza parece estar nos dirigindo. Só a partir deste ponto podemos satisfazer nossas necessidades.

É necessário ter em mente que, embora seja possível descrever a Individuação em termos de estágios, o processo de Individuação é bem mais complexo do que a simples progressão aqui delineada. Todos os passos mencionados sobrepõem-se, e as pessoas voltam continuamente a problemas e temas antigos (espera-se que de uma perspectiva diferente). A Individuação poderia ser apresentada como uma espiral na qual os indivíduos permanecem se confrontando com as mesmas questões básicas, de forma cada vez mais refinada. Este conceito está muito relacionado com a concepção Zen-budista da iluminação, na qual um individuo nunca termina um Koan, ou problema espiritual, e a procura de si mesmo é vista como idêntica à finalidade.)


Obstáculos ao Crescimento
A Individuação nem sempre é uma tarefa fácil e agradável. O Ego precisa ser forte o suficiente para suportar mudanças tremendas, para ser virado pelo avesso no processo de Individuação.
Poderíamos dizer que todo o mundo está num processo de Individuação, no entanto, as pessoas não o sabem, esta é a única diferença. A Individuação não é de modo algum uma coisa rara ou um luxo de poucos, mas aqueles que sabem que passam pelo processo são considerados afortunados. Desde que suficientemente conscientes, eles tiram algum proveito de tal processo.

A dificuldade deste processo é peculiar porque constitui um empreendimento totalmente individual, levado a cabo face à rejeição ou, na melhor das hipóteses, indiferença dos outros. Jung escreve que a natureza não se preocupa com nada que diga respeito a um nível mais elevado de consciência, muito pelo contrário. Logo, a sociedade não valoriza em demasia essas proezas da psique e seus prêmios são sempre dados a realizações e não à personalidade. Esta última será, na maioria das vezes, recompensada postumamente.

Cada estágio, no processo de Individuação, é acompanhado de dificuldades. Primeiramente, há o perigo da identificação com a Persona. Aqueles que se identificam com a Persona podem tentar tornar-se perfeitos demais, incapazes de aceitar seus erros ou fraquezas, ou quaisquer desvios de sua auto-imagem idealizada. Aqueles que se identificam totalmente com a Persona tenderão a reprimir todas as tendências que não se ajustam, e a projetá-las nos outros, atribuindo a eles a tarefa de representar aspectos de sua identidade negativa reprimida.

A Sombra pode ser também um importante obstáculo para a Individuação. As pessoas que estão inconscientes de suas sombras, facilmente podem exteriorizar impulsos prejudiciais sem nunca reconhecê-los como errados. Quando a pessoa não chegou a tomar conhecimento da presença de tais impulsos nela mesma, os impulsos iniciais para o mal ou para a ação errada são com freqüência justificados de imediato por racionalizações. Ignorar a Sombra pode resultar também numa atitude por demais moralista e na projeção da Sombra em outros. Por exemplo, aqueles que são muito favoráveis à censura da pornografia tendem a ficar fascinados pelo assunto que pretendem proibir; eles podem até convencer-se da necessidade de estudar cuidadosamente toda a pornografia disponível, a fim de serem censores eficientes.

O confronto com a Anima ou o Animus traz, em si, todo o problema do relacionamento com o inconsciente e com a psique coletiva. A Anima pode acarretar súbitas mudanças emocionais ou instabilidade de humor num homem. Nas mulheres, o Animus freqüentemente se manifesta sob a forma de opiniões irracionais, mantidas de forma rígida. (Devemos nos lembrar de que a discussão de Jung sobre Anima e Animus não constitui uma descrição da masculinidade e da feminilidade em geral. O conteúdo da Anima ou do Animus é o complemento de nossa concepção consciente de nós mesmos como masculinos ou femininos, a qual, na maioria das pessoas, é fortemente determinada por valores culturais e papéis sexuais definidos em sociedade.)

Quando o indivíduo é exposto ao material coletivo, há o perigo de ser engolido pelo inconsciente. Segundo Jung, tal ocorrência pode tomar uma de duas formas. Primeiro, há a possibilidade da inflação do Ego, na qual o indivíduo reivindica para si todas as virtudes da psique coletiva. A outra reação é a de impotência do Ego; a pessoa sente que não tem controle sobre a psique coletiva e adquire uma consciência aguda de aspectos inaceitáveis do inconsciente-irracionalidade, impulsos negativos e assim por diante.

Assim como em muitos mitos e contos de fadas, os maiores obstáculos estão mais próximos do final. Quando o indivíduo lida com a Anima e o Animus, uma tremenda energia é libertada. Esta energia pode ser usada para construir o Ego ao invés de desenvolver o Self. Jung referiu-se a este fato como identificação com o Arquétipo do Self, ou desenvolvimento da personalidade-mana (mana é uma palavra malanésica que significa a energia ou o poder que emana das pessoas, objetos ou seres sobrenaturais, energia esta que tem uma qualidade oculta ou mágica). O Ego identifica-se com o Arquétipo do homem sábio ou mulher sábia aquele que sabe tudo. A personalidade-mana é perigosa porque é excessivamente irreal. Indivíduos parados neste estágio tentam ser ao mesmo tempo mais e menos do que na realidade são. Eles tendem a acreditar que se tornaram perfeitos, santos ou até divinos, mas, na verdade, menos, porque perderam o contato com sua humanidade essencial e com o fato de que ninguém é plenamente sábio, infalível e sem defeitos.

Jung viu a identificação temporária com o Arquétipo do Self ou com a personalidade-mana como sendo um estágio quase inevitável no processo e Individuação. A melhor defesa contra o desenvolvimento da inflação do Ego é lembrarmo-nos de nossa humanidade essencial, para permanecermos assentados na realidade daquilo que podemos e precisamos fazer, e não na que deveríamos fazer ou ser.

 

Referência
Ballone GJ - Carl Gustav Jung, in. PsiqWeb, internet, disponível em http://www.psiqweb.med.br/, revisto em 2005

* - baseado no livro "Teorias da Personalidade"- J. Fadiman, R. Frager - Harbra - 1980 para saber mais: Tipos Psicológicos - C.G.Jung - Zahar Editores - RJ - 1980

http://virtualpsy.locaweb.com.br/index.php?art=157&sec=53

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Máscara X Persona  (Psicologia X Arte) escrito em quarta 07 outubro 2009 00:57

O termo deriva da palavra latina para máscara usada por atores na época clássica. Daí, persona refere-se à máscara ou face que uma pessoa põe para confrontar o mundo. A persona pode se referir à identidade sexual, um estágio de desenvolvimento (tal como a adolescência), um status social, um trabalho ou profissão. Durante toda uma vida, muitas personas serão usadas e diversas podem ser combinadas em qualquer momento específico.

A concepção, de Jung, da persona é a de um arquétipo, significando, neste contexto, que existe uma inevitabilidade e ubiqüidade para a persona. Em qualquer sociedade, um meio de facilitar o relacionamento e o intercâmbio é exigido; essa função é parcialmente efetuada pelas personas dos indivíduos em questão. Diferentes culturas estabelecerão diferentes critérios para a persona e haverá alteração e evolução ao longo do tempo uma vez que o padrão arquetípico subjacente é suscetível de variação infinita. Às vezes, a persona é referida como o “arquétipo social”, envolvendo todos os compromissos próprios para se viver em uma comunidade.

Resulta que a persona não deve ser pensada como inerentemente patológica ou falsa. um risco de patologia se uma pessoa se identifica de forma demasiadamente íntima com sua persona. Isto implicaria uma falta de conscietização de um papel muito além do social (advogado, analista, operário) ou de papel sexual (mãe) e também uma falha de levar em conta a maturação (por exemplo), uma evidente dificuldade em se adptar ao fato de ter crescido. A identificação com a persona leva a uma forma de rigidez ou fragilidade psicológicas; o inconsciente tenderá, antes, a irromper com ímpeto na consciência, que emergirt de forma controlável. O ego, quando identificado com a persona, é capaz somente de uma orietação externa. É cego para eventos internos e, daí, incapaz de responder a eles. Resulta ser possível permanecer-se inconsciente da própria persona.

Estes últimos comentários apontam para o lugar que Jung atribuía à persona na estrutura da psique. Era como um mediador entre o ego e o mundo externo (quase do mesmo modo que anima e animus mediam entre o ego e o mundo interno). Portanto, pode-se cogitar da persona e de anima/animus como opostos. Enquanto a persona está ocupada com uma adaptação consciente e coletiva, anima/animus estão ocupados com uma adaptação àquilo que é pessoal, interior e individual.

http://www.uroborus.com/Encouragement/The_Mask/Persona.jpgDar-se conta das diferentes personas que vestimos, isto é, estar consciente das máscaras que servem ao ego em seu exercício de (re)velar-se aos outros, é fase preliminar e imprescindível de todo e qualquer processo de auto-conhecimento, a que o psiquiatra suíço Carl G. Jung (1875-1961) chama de individuação. Isto porque, forçosamente, para que estabeleçamos contato com o mundo exterior, assumimos aparências que nem sempre correspondem àquilo que somos essencialmente. Sob o prisma da psicologia junguiana, a persona encarna a metáfora da fixidez da máscara do ator que, no transcorrer de sua recitação, desenvolve o papel que lhe cabe procurando fazer coincidir as qualidades de seu personagem com a (i)mobilidade plástica de seu rosto. Desse modo, tornar-se consciente da própria persona ou de seus aspectos mais relevantes, é perceber aquilo que "já somos" no mundo, posto que a persona traz elementos fortes de caráter que nos são dados desde as primeiras experiências de vida e que se cristalizam sobre o ego ao longo de todo um complexo processo de desenvolvimento da personalidade.

A persona "per si", é claro, não pode ser entendida como traço psíquico patológico; nem a constatação óbvia de que nos valemos de certas máscaras que intermediam as relações humanas pode ser chamado simplesmente de hipocrisia. As personas são mesmo necessárias e representam até certo ponto um sistema útil de defesa. Tornam-se patológicas quando o ego as valoriza em absoluto e deixa-se enganar por sua mera aparência, a propósito, aquela mesma com ele quer se mostrar aos outros. Em tais circunstâncias neuróticas, comuns por sinal, o ego converge a energia psíquica quase que exclusivamente para os papéis sociais assumidos e guarda uma consciência cada vez mais virtual dos verdadeiros valores perdidos em seu mundo interior, esquecendo-se de si próprio e preterindo o revitalizador caminho da individuação. Nestes casos, restamos presos em nossas próprias armadilhas tal qual o ator que se deixa dominar por seu papel a ponto de perder a noção de sua genuína identidade, negligenciando o verdadeiro sentido de sua existência.

Convém resgatarmos aqui a citada crença primitiva, que ora se reveste de profunda verdade psicológica, que faz da máscara um instrumento de possessão, capaz de pôr em risco a integridade psíquica daquele que a experimenta sem antes sacralizar este seu ato.

A psicoterapia, nesse aspecto, é processo dinâmico e necessário capaz de aguçar o ego para que se conscientize de seus disfarces, a partir do que poderá vislumbrar sua natureza mais profunda. O caminho da individuação pressupõe que nossas máscaras sejam paulatinamente experimentadas, assimiladas, reconhecidas e retiradas; tão logo a última das personas seja compreendida pelo ego, este se depara com sua face natural e despida, até então oculta, entretanto.

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*Máscara

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Arquétipo  (Psicologia X Arte) escrito em segunda 01 junho 2009 21:51

Arquétipo

Os princípios básicos, os archetypoi, do inconsciente são indescritíveis em virtude de sua riqueza de referência, muito embora recognoscíveis em si mesmos. O intelecto discriminador naturalmente prossegue tentando estabelecer-lhes significados únicos e, assim, perde o ponto essencial; pois aquilo que, antes de tudo, podemos estabelecer como compatível com sua natureza é seu significado múltiplo, sua quase ilimitada riqueza de referência, que torna impossível qualquer formulação unilateral (CW 9i, parág. 80).

    A parte herdada da psique; padrões de estruturação do desempenho psicológico ligados ao instinto; uma entidade hipotética irrepresentável em si mesma e evidente somente através de suas manifestações.

    A teoria dos arquétipos, de Jung, desenvolveu-se em três estágios. Em 1912 ele escreveu sobre imagens primordiais que reconhecia na vida inconsciente de seus pacientes, como também em sua própria auto-análise. Essas imagens eram semelhantes a motivos repetidos em toda parte e por toda a história, porém seus aspectos principais eram sua numinosidade, inconsciência e autonomia. Na concepção de Jung, o inconsciente coletivo promove tais imagens. Por volta de 1917, escrevia sobre dominantes não-pessoais ou pontos nodais na psique, que atraem energia e influenciam o funcionamento de uma pessoa. Foi em 1919 que pela primeira vez fez uso do termo arquétipo, a fim de evitar qualquer sugestão de que era o conteúdo e não o esboço ou padrão inconsciente e irrepresentável que era fundamental. São feitas referências ao arquétipo per se para que fosse claramente distinguido de uma imagem arquetípica compreensível (ou compreendida) pelo homem.

    O arquétipo é um conceito psicossomático (quando um problema psicológico se torna físico) , unindo corpo e psique, instinto e imagem. Para Jung isso era importante, pois ele não considerava a psicologia e imagens como correlatos ou reflexos de impulsos biológicos. Sua asserção de que as imagens evocam o objetivo dos instintos implica que elas merecem um lugar de igual importância.

    Os arquétipos são percebidos em comportamentos externos, especialmente aqueles que se aglomeram em torno de experiências básicas e universais da vida, tais como nascimento, casamento, maternidade, morte e separação. Também se aderem à estrutura da própria psique humana e são observáveis na relação com a vida interior ou psíquica, revelando-se por meio de figuras tais como anima, sombra, grande-mãe, e outras mais. Teoricamente, poderia existir uma número infinito de arquétipos.

    Precisei suscitar-lhe idéias mitológicas e religiosas, pois era um desses seres que devem desenvolver uma atividade espiritual. Sua vida adquiriu então um sentido; quanto à neurose, desapareceu.
Nesse caso, não utilizei "método" algum; sentira a presença do numem". (Jung,1963, p.127).

    Os arquétipos fazem parte de um universo pouco definível, mas imprescindível para a compreensão do indivíduo em seu todo. E, segundo o próprio Jung a significação etiológica do arquétipo fica menos fantástica quando consideramos a mitologia oculta no homem (Jung, 1936/37).
    Para os arquétipos inexistem definições finais, existem apenas formas de tentar compreender o seu funcionamento no homem. Da mesma maneira, não existe uma compreensão final dos mitos, mas sim versões e modos de entendimento deste universo fantástico e com temas definidos. Os mitos fazem parte da humanidade e são representados através de manifestações arquetípicas do indivíduo.

Na psicologia analítica existem vínculos com os mitos para estudos dos arquétipos,tendo em vista que o inconsciente fala através da linguagem simbólica, a imagem arquetípica, podemos entendê-la a partir dos mitos.

Arquétipo comentado por Ken Wilber

O primeiro uso, e o mais comum, é imagem arcaica. Esta foi a formulação original de Jung e ainda é a predominante e a mais largamente usada (por exemplo, pelo movimento mitopoético, movimento masculino e psicologia folclórica). Essas imagens arcaicas coletivamente herdadas, acreditava Jung, eram uma herança filogenética, “a percepção instintiva de si mesmo”. Jung acreditava que um particularmente rico repositório desses arquétipos poderia ser encontrado nas mitologias do mundo (o que levou os primeiros críticos de Jung a acusá-lo de “mitomania”). Essas imagens míticas arcaicas eram não-racionais e, por causa disso, Jung achou que elas eram uma fonte direta de consciência espiritual, o que é exatamente o que ele tinha em mente quando afirmou que  “misticismo é experiência de arquétipos”.  

Neste uso, Jung é definitivamente culpado da falácia pré-trans. Simplesmente, ele não diferencia com suficiente clareza as situações pré-racionais e transracionais, e, assim, tende a elevar infantilismos pré-racionais a glórias espirituais, simplesmente porque ambos não são racionais. Este uso para “arquétipo”, porque ainda é o mais comum e o mais largamente associado ao nome de Jung, é o que mais tenho criticado. Nele, os arquétipos são encontrados nos estágios primitivos da evolução, filogenética e ontogenética. Assim, tenho assinalado que essas imagens “arquetípicas” arcaicas deveriam realmente ser chamadas de “protótipos”, porque são formas pré-racionais, mágicas e míticas, e não formas sutis, transracionais e pós-pós-convencionais (que é o modo como os arquétipos são usados na Filosofia Perene, de Plotino a Garab Dorje, a Asanga e Vasubandhu).

A propósito, como sempre ressaltei, concordo com Jung com respeito à natureza dessas imagens arcaicas enquanto imagens arcaicas: acredito que elas são herdadas coletivamente, um tipo de herança filogenética (um ponto que Freud também aceitava); são importantes em certos tipos de patologia; podem ser encontradas abundantemente nas mitologias mundiais; freqüentemente aparecem em sonhos; e assim por diante. Mas essas imagens arcaicas têm muito pouco, senão nada, a ver com o desenvolvimento pós-pós-convencional. Uma das falácias pré-trans de Jung foi confundir coletivo com transpessoal, uma vez que há estruturas de coletivo pré-pessoal, coletivo pessoal e coletivo transpessoal.

O segundo uso para arquétipo dado por Jung era muito mais abrangente; simplesmente referia-se a arquétipos como “formas desprovidas de conteúdo” herdadas coletivamente. Em O Projeto Atman cito-o dizendo exatamente isso e ressalto que se essa é nossa definição para arquétipo, então todas as estruturas profundas de cada nível do espectro da consciência (exceto a informe) podem ser chamadas de arquetípicas, e isto para mim está bem. Mas, então, os arquétipos não têm absolutamente nada a ver com imagens arcaicas, não é mesmo? 

Este uso para arquétipo (como estruturas profundas desprovidas de conteúdo) é um dos usos que Wittine deseja reabilitar. “Meu entendimento é que arquétipos são predisposições estruturais inatas definíveis somente em termos de princípios ordenadores, nunca em termos de conteúdo específico.” Wittine afirma que ignoro este uso, o que não é o caso, como acabamos de ver. Simplesmente, chamo a atenção para o fato que essa definição é totalmente discordante do primeiro e mais comum uso dado por Jung. Se Wittine deseja seguir essa definição, isto é plenamente aceitável, mas há necessidade de bastante esclarecimento a fim de diferenciá-la do primeiro uso e evitar massivas falácias pré-trans. Eu, particularmente, não considero a literatura junguiana útil nesse ponto. 

O terceiro uso que Jung e seus seguidores dão para arquétipo está mais alinhado com a Filosofia Perene, que vê os arquétipos como as primeiras formas na involução. O mundo manifesto inteiro origina-se do Informe (ou Abismo causal) e as primeiras formas a surgir, sobre as quais as demais se apoiarão, são “arque-formas” ou arquétipos. Assim, neste uso, os arquétipos são as mais elevadas Formas das nossas próprias possibilidades, as Formas mais profundas dos nossos próprios potenciais – mas também as últimas barreiras para o Informe e Não-dual. Como as primeiras (e primordiais) formas na involução ou manifestação (ou movimento de distanciamento da Fonte causal), os arquétipos são as derradeiras (e mais elevadas) formas na evolução ou retorno para a Fonte. Como as Formas bem mais próximas do Informe, eles são as primeiras formas que a alma assume à medida que se contrai diante do infinito e esconde sua verdadeira natureza; mas, exatamente por isso, também são os faróis mais altos no caminho de volta para o Informe e a barreira final a ser destruída às margens do infinito radiante.

Há muitas maneiras de descrever os arquétipos como usados pela Filosofia Perene. Se você está em meditação informe (cessação ou nirvikalpa samadhi), os primeiros fenômenos com que você se defronta na cessação são exatamente os arquétipos. Eles são formas sutis, sons, iluminações, influências, correntes energéticas etc. Do mesmo modo, a cada noite, quando você sai de um sono profundo sem sonhos e começa a sonhar, as primeiras formas que você vê são arquétipos. Na yoga anuttaratantra, à medida que você cai no escuro perto da realização, as primeira formas vistas são arquétipos.  

O que tudo isso tem em comum é que os arquétipos são as formas primordiais localizadas na fronteira entre o não-manifesto causal e a primeira manifestação do nível sutil. Assim, eles são as primeiras e primordiais formas na involução ou manifestação (ou movimento de distanciamento da Fonte causal) e as últimas e mais elevadas formas na evolução ou retorno à Fonte (e, desse modo, também as barreiras finais).  

Como disse, esses arquétipos são formas sutis, iluminações, correntes energéticas, sons, influenciações extremamente sutis e assim por diante – as primeiras formas do ser, sobre as quais o ser menor será modelado; as primeiras formas de influenciação sobre as quais os sentimentos menores serão um reflexo obscuro; as primeiras formas da consciência manifesta sobre as quais toda a cognição menor será uma pálida reflexão; as primeiras formas de som sobre as quais todos os sons inferiores serão um eco vazio. E, assim, os arquétipos, os verdadeiros arquétipos, são as Formas do nosso potencial superior; as Formas da nossa verdadeira natureza conclamando-nos a relembrar quem e o que realmente somos. E em sua derradeira ação, são abandonadas e destruídas – a escada que, tendo servido ao seu propósito, é posta de lado – e, aí, em substituição, aparece o infinito radiante que esteve sempre presente, brilhando inteiramente através e além dessas Formas.

Essa fração do texto pode ser encontrada aqui:

http://www.ariray.com.br/textossaladeleitura/03_arquetipos.doc

Numinoso (vem do latim, numen = divindade)

No intuito de elucidar as características irracionais peculiares do sagrado o autor cria o neologismo numinoso, derivado do termo latino numen, que significa deidade ou influxo divino. Explica ele que o elemento numinoso pode ser identificado como um princípio ativo presente na totalidade das religiões, portador da idéia do bem absoluto. Quando se refere ao numinoso esclarece que é ”uma categoria especial de interpretação e de avaliação e, da mesma maneira, de um estado de alma numinoso que se manifesta quando esta categoria se aplica, isto é, sempre que um objeto se concebe como numinoso”. (Otto, 92, p. 15). Desta forma a categoria do numinoso caracteriza-se como algo sui generis, não passível de definição explícita, mas sim de observação e descrição, como todo fenômeno originário. A presença do numen desencadeia um estado de alma, uma reação consciente que pode ser objeto de análises psicológicas ou fenomenológicas, as quais procuram descrever o sentimento numinoso. Há estreita semelhança entre o numinoso e o mana, força divina de algumas religiões primitivas do Pacífico, também amoral e não-racional, e o orenda, o poder místico dos iroqueses da América do Norte. Nas palavras do autor:

Quando a alma se abre às impressões do Universo, a elas se abandona e nelas mergulha, torna-se suscetível, segundo Schleiermacher, de experimentar intuições e os sentimentos de algo que é, por assim dizer, um excesso característico e livre que se acrescenta à realidade empírica, um excesso não apreendido pelo conhecimento teórico do mundo e da conexão cósmica, tal como está constituído pela ciência. (Otto, op. Cit., p.188)

Em 1937 Jung escreveu sobre o numinoso como uma instância ou efeito dinâmicos não causados por um ato arbitrário da vontade. Pelo contrário, ele arrebata e controla o sujeito humano, que é sempre antes sua vítima que seu criador. O numinoso – indiferentemente quanto a que causa possa ter – é uma experiência do sujeito independentemente de sua vontade. ... O numinoso é tanto uma qualidade pertinente a um objeto visível como a influência de uma presença invisível que causa uma peculiar alteração da consciência.

* Rudolf Otto, in "O Sagrado"

Texto para download: http://www.scribd.com/doc/3239417/Jung-Sobre-os-arquetipos-do-Inconsciente-Coletivo

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JUNG - Inconsciente Coletivo  (Psicologia X Arte) escrito em sexta 29 maio 2009 17:23

Nise da Silveira

       Poder-se-á representar a psique como um vasto oceano (inconsciente) no qual emerge pequena ilha (consciente).

       CONSCIENTE - Na área do consciente desenrolam-se as relações entre conteúdos psíquicos e o ego, que é o centro do consciente. Para que qualquer conteúdo psíquico torne-se consciente terá necessariamente de relacionar-se com o ego. Os conteúdos, os processos psíquicos que não entretêm relações com o ego constituem o domínio imenso do inconsciente. Jung define o ego como um complexo de elementos numerosos formando, porém, unidade bastante coesa para transmitir impressão de continuidade e de identidade consigo mesma. Dada sua composição feita de múltiplos elementos, Jung usa freqüentemente a expressão complexo do ego, em vez de ego, simplesmente.
"A luz da consciência tem muitos graus de brilho e o complexo do ego muitas gradações de força".

       INCONSCIENTE -

O inconsciente define um complexo psíquico (conjunto de fatos e processos psíquicos) de natureza praticamente insondável, misteriosa, obscura, de onde brotariam as paixões, o medo, a criatividade e a própria vida e morte. O conceito de inconsciente de Jung se contrapõe ao conceito de subconsciente ou pré-conscienteFreud. O pré-consciente seria o conjunto de processos psíquicos latentes, prontos a emergirem para se tornarem objetos da consciência. Assim, o subconsciente poderia ser explicado pelos conteúdos que fossem aptos a se tornarem conscientes (determinismo psíquico). Já o inconsciente seria uma esfera ainda mais profunda e insondável. Haveria níveis no inconsciente mesmo inatingíveis.

0 inconsciente, na psicologia jungueana, compreende inconsciente pessoal e inconsciente coletivo.

Inconsciente pessoal.

       Esta denominação refere-se às camadas mais superficiais do inconsciente, cujas fronteiras com o consciente são bastante imprecisas. Aí estão incluídas as percepções e impressões subliminares dotadas de carga energética insuficiente para atingir o consciente; combinações de idéias ainda demasiado fracas e indiferenciadas; traços de acontecimentos ocorridos durante o curso da vida e perdidos pela memória consciente; recordações penosas de serem relembradas: e, sobretudo, grupos de representações carregados de forte potencial afetivo, incompatíveis com a atitude consciente (complexos). Acrescente-se a soma das qualidades que nos são inerentes porém, que nos desagradam e que ocultamos de nós próprios, nosso lado negativo, escuro.

       Esses diversos elementos, embora não estejam em conexão com o ego, nem por isso deixam de ter atuação e de influenciar os processos conscientes, podendo provocar distúrbios tanto de natureza psíquica quanto de natureza somática.

Inconsciente coletivo.

       Corresponde às camadas mais profundas do inconsciente, aos. fundamentos estruturais da psique comuns a todos os homens.

       "Do mesmo modo que o corpo humano apresenta urna anatomia comum, sempre a mesma, apesar de todas as diferenças raciais, assim também a psique possui um substrato comum. Chamei a este substrato inconsciente coletivo, Na qualidade de herança comum transcende todas as diferenças de cultura e de atitudes conscientes, e não consiste meramente de conteúdos capazes de tornarem-se conscientes, mas de disposições latentes para reações idênticas. Assim o inconsciente coletivo é simplesmente a expressão psíquica da identidade da estrutura cerebral independente de todas as diferenças raciais. Deste modo pode ser explicada a analogia, que vai mesmo até a identidade, entre vários temas míticos e símbolos, e a possibilidade de compreensão entre os homens em geral. As múltiplas linhas de desenvolvimento psíquico partem de um tronco comum cujas raízes se perdem muito longe num passado remoto."

       Estamos aqui bastante longe do conceito de inconsciente segundo Freud: "um caos ou uma caldeira cheia de pulsões em ebulição". No âmago do inconsciente coletivo Jung descobriu um centro ordenador - o self (si mesmo). Desse centro emana inesgotável fonte de energia. Seu papel é importantíssimo na psicologia jungueana, segundo veremos daqui por diante.

       Em determinadas circunstâncias esse centro corresponde ao super-ego da psicologia freudiana. Quando a renúncia aos desejos egoístas ocorre por temor da opinião pública e dos códigos, conforme acontece ordinariamente, isso significa que o self permanece inconsciente e, nesta condição, projeta-se no exterior, identificando-se à consciência moral coletiva. Neste caso, self e super-ego coincidem, Mas, desde que o self torne-se perceptível como fator psíquico determinante, então a renúncia às exigências egoístas não será mais motivada pela pressão da moral coletiva, porém pelas próprias leis internas inerentes, de modo inato, ao self. Em tais circunstâncias esta instância psíquica deixa de coincidir com o super-ego.

       Apresenta-se naturalmente a pergunta: como foi que Jung chegou à formulação da hipótese do inconsciente coletivo, isto é, da existência de um substrato psíquico comum a todos os humanos?

       Nas suas experiências sobre as associações de idéias que o levaram, conforme vimos no segundo capítulo, à descoberta dos complexos, ele se familiarizara intimamente com o material reprimido das vivências pessoais. Trabalhara com normais, neuróticos e psicóticos.
Segredos que envenenavam vidas tinham vindo a luz, ocultos mecanismos de sintomas haviam sido descobertos. Mas, às veres, apresentavam-se problemas que pareciam insolúveis, sobretudo nas pesquisas com psicóticos. Jung estava convencido de que os sintomas da loucura, ainda os mais extravagantes, encerravam significações tanto quanto os atos falhados, os sonhos ou as manifestações neuróticas. E muitas dessas significações ele já desvendara trabalhando com uma paciência infinita. Entretanto haviam delírios, haviam alucinações que o deixavam às cegas. Não encontrava suas raízes nos complexos que o método associativo apreendia nem na observação clínica, De onde viriam? Por mais que os estudasse, com os recursos de que dispunha, não achava o fio de suas significações. Não obstante registrava cuidadosamente idéias delirantes, alucinações e gestos por mais absurdos que fossem, dos loucos internados no hospital Burgholzli (Zurique), onde era chefe de clínica.
Nas suas notas, correspondentes ao ano de 1906, fora consignado o encontro, nos corredores daquele hospital, com um esquizofrênico paranóide que, tentando olhar o sol piscava as pálpebras e movia a cabeça de um lado para o outro. "Ele me tomou pelo braço dizendo que queria mostrar-me uma coisa: se eu movesse a cabeça de um lado para o outro, o pênis do sol mover-se-ia também e este movimento era a origem do vento". Quatro anos mais tarde, lendo a recente publicação de manuscritos gregos referentes a visões de adeptos de Mithra, Jung deparou com a seguinte descrição: "E também será visto o chamado tubo, origem do vento predominante. Ver-se-á no disco do sol algo parecido a um tubo, suspenso. E na direção das regiões do ocidente é como se soprasse um vento de leste infinito. Mas se outro vento prevalecer na direção das regiões do oriente, ver-se-á da mesma maneira o tubo voltar-se para aquela direção".

       Este achado revelador ocorreu no curso de 1410, quando Jung entregava-se apaixonadamente a estudos de arqueologia e de mitologia. Em suas Memórias conta porque naquela época ficou empolgado por esses assuntos. 0 motivo foi um sonho, Eis o sonho. Ele se acha numa casa desconhecida que, não obstante, era sua casa, Uma casa de dois andares. Inicialmente, encontra-se no andar superior, num salão ornado de belos quadros e provido de móveis de estilo século XVIII. Descendo as escadas, chega ao pavimento térreo onde o mobiliário é medieval e o piso de tijolos vermelhos. Percorre várias peças, explorando a casa até deter-se diante de uma pesada porta. Abre-a e vê degraus de pedra que conduzem à adega. Desce e encontra-se num amplo salão abobadado de aspecto muito antigo. Suas paredes são construídas à maneira dos romanos e o piso é formado por lajes de pedra. Por entre essas pedras descobre uma argola. Puxando-a, desloca-se uma laje, deixando aparecer estreita escada. Descendo ainda, vê-se numa caverna talhada na rocha. Espessa camada de poeira cobre o solo e de permeio, entre fragmentos de cerâmica, descobre ossos espalhados e dois crânios humanos.

       Para Jung os sonhos são auto descrições da vida psíquica. Sendo assim, interpretou este sonho vendo na casa a imagem de sua própria psique. 0 consciente estava figurado pelo salão do primeiro andar, cujo mobiliário apresentava-se bem de acordo com a formação cultural do sonhador (filosofias do século XVIII e do século XIX); e o pavimento térreo correspondia às camadas mais superficiais do inconsciente. Quanto mais descia mais se aprofundava em mundos antigos até chegar a uma espécie de caverna pré-histórica.

       O psicanalista Erich Fromm apresenta outra posição a respeito, denominado sua concepção não de "inconsciente coletivo" mas sim "inconsciente social", que seria a parte específica da experiência dos seres humanos que a sociedade repressiva não permite que chega à consciência dos mesmos. Já o sociólogo e filósofo Nildo Viana concebe o inconsciente coletivo de uma terceira posição. Ele seria o conjunto das necessidades e potencialidades reprimidas de um conjunto de indivíduos, grupos, classes ou toda a sociedade. 

       0 inconsciente coletivo funciona, na interpretação psicológica, como o denominador comum que reúne e explica numerosos fatos impossíveis de entender, no momento atual da ciência, sem sua postulação.

       O inconsciente coletivo se opõe ao inconsciente pessoal, o qual poderia se manifestar na produção de sonhos. Desta forma, enquanto alguns destes têm caráter pessoal e podem ser explicados pela própria experiência da pessoa, outros apresentam imagens impessoais e estranhas, que não se consegue associar a nada de que se tenha lembrança. Esses sonhos seriam então um produto do inconsciente coletivo, algo como um depósito de imagens e símbolos, que Jung denomina arquétipos. Seria deles também de onde se originariam os mitos.

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